Temendo Ceciliano no governo-tampão, Paes antecipa disputa e parte para o ataque

Pré-candidatura ao Palácio Guanabara rompe promessa de campanha do atual prefeito do Rio, expõe racha nos bastidores e escancara a guerra política em torno da sucessão estadual

A possibilidade de uma candidatura de André Ceciliano (PT) a um eventual governo-tampão no Estado do Rio de Janeiro acendeu o alerta no entorno do prefeito Eduardo Paes (PSD). Diante do avanço do nome do petista nos bastidores da Assembleia Legislativa (Alerj), Paes decidiu sair do silêncio, antecipar o jogo político e partir para o ataque.

Na última segunda-feira (19/01), o prefeito confirmou pela primeira vez que é pré-candidato ao Governo do Estado, abrindo oficialmente um novo capítulo da disputa política. A decisão contraria uma promessa feita durante a campanha de reeleição à Prefeitura do Rio, quando Paes afirmou que cumpriria integralmente os quatro anos de mandato.

Agora, o prefeito tenta justificar a mudança de rota com articulações em nível nacional. Paes revelou que, ao conversar com o presidente Lula na semana passada e declarar apoio à sua reeleição, deixou claro que precisará construir alianças com diferentes campos políticos no Estado.

“O presidente Lula me disse que gostaria de ver a deputada Benedita da Silva de volta ao Senado. Eu disse que seria uma honra, mas também deixei claro que vou buscar a aliança mais ampla possível. O Rio precisa de união e de força. Nessas alianças, inclusive, pode haver gente que não concorde comigo na eleição presidencial”, afirmou.

Apesar do gesto a Lula, Paes indicou que não pretende nacionalizar a campanha estadual. Esse é justamente um dos receios de integrantes do PT, que avaliam que o presidente Lula precisa de um palanque forte no Rio de Janeiro, mas temem que Paes não seja um aliado ideologicamente alinhado ao partido em todos os momentos.

Expansão para o interior

Nos bastidores, Eduardo Paes tem intensificado conversas para atrair prefeitos e dirigentes partidários que facilitem sua entrada no interior do Estado. Um dos desafios do político carioca é expandir sua votação fora da capital, especialmente, na Baixada Fluminense.

Entre os nomes cotados para compor a chapa como vice está o do ex-prefeito de Nova Iguaçu, Rogerio Lisboa (PP). Fontes revelam que as conversas estariam bem adiantadas e contam com o aval do presidente estadual da legenda, o deputado federal Doutor Luizinho.

Ataque direto a Ceciliano

O discurso, no entanto, ganhou contornos mais agressivos quando Paes passou a criticar diretamente André Ceciliano, atual secretário de Assuntos Parlamentares da Presidência da República e ex-presidente da Alerj. Ceciliano é apontado como um dos nomes cotados para disputar uma eventual eleição indireta ao governo do Estado, caso o governador Cláudio Castro deixe o cargo para concorrer ao Senado. Nesse cenário, um governador-tampão seria escolhido pela Assembleia para concluir o mandato até o fim do ano.

Paes insinuou que a possível candidatura de Ceciliano seria patrocinada por Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj preso em dezembro do ano passado. A fala foi vista como uma tentativa de desgastar politicamente o petista e associá-lo a escândalos.

Resposta dura e nota pública

A reação de André Ceciliano foi imediata. Em nota enviada à imprensa, o petista classificou as declarações de Paes como um “ataque despropositado” e ironizou o tom adotado pelo prefeito, dizendo-se “lisonjeado” pela importância que lhe foi atribuída.

Ceciliano afirmou que não colocou seu nome como candidato a qualquer cargo majoritário em 2026, reiterando que, até o momento, seu projeto é a reeleição como deputado estadual. Reconheceu, porém, que tem sido procurado por parlamentares de diferentes campos ideológicos para discutir a possibilidade de disputar a eleição indireta.

“Em nenhum momento coloquei meu nome como candidato a coisa alguma em 2026, a não ser a deputado estadual, mas percebo na fala nervosinha do prefeito que ele está dando uma importância a mim maior do que eu imaginava”, ressaltou.

Segundo ele, qualquer decisão estaria condicionada à contribuição para a reeleição do presidente Lula no Rio de Janeiro, Estado que classificou como “berço do bolsonarismo”.

Na mesma nota, Ceciliano elevou o tom ao acusar Paes de flertar com o bolsonarismo e de articular acordos com figuras como o pastor Silas Malafaia e o próprio governador Cláudio Castro. De acordo com o petista, o prefeito estaria disposto a apoiar um nome do PL para o mandato-tampão e a manter neutralidade na disputa presidencial, em contradição com o discurso de aliado do campo democrático.

“É chegada a hora de o prefeito se manifestar publicamente se será, de fato, um aliado do presidente Lula ou se agirá de acordo com sua fama de político que só pensa em si”, escreveu Ceciliano.

Polêmicas recentes enfraquecem discurso

O embate ocorre em meio a uma sequência de polêmicas envolvendo Eduardo Paes, que têm alimentado críticas sobre a coerência de suas alianças. Recentemente, o prefeito declarou apoio público ao pastor Silas Malafaia durante um culto de aniversário, afirmando manter com ele uma amizade de mais de 20 anos e dizendo que “mexeu com Silas Malafaia, mexeu comigo”.

A declaração ocorreu enquanto o pastor era alvo de investigação da Polícia Federal, gerando forte repercussão negativa. A aproximação com Malafaia, figura central do bolsonarismo, causou estranhamento sobretudo porque Paes se apresenta como integrante do campo democrático.

Outra controvérsia envolveu a inclusão de um palco gospel no Réveillon de Copacabana, o que motivou acusações de intolerância religiosa e privilégio cristão por parte de representantes de religiões de matriz africana. Lideranças religiosas denunciaram a exclusão simbólica das tradições afro-brasileiras em uma festa historicamente marcada pela diversidade cultural.

Paes reagiu de forma dura às críticas, classificando-as como preconceituosas, o que ampliou a crise. Dias depois, acabou pedindo desculpas. Especialistas apontaram o episódio como reflexo do racismo estrutural e da intolerância religiosa ainda presentes no país.

Disputa antecipada

O confronto entre Paes e Ceciliano evidencia que a sucessão estadual já começou. A possibilidade de uma eleição indireta ao governo transformou os bastidores da política fluminense em um campo de batalha antecipado e a ofensiva do prefeito indica que o nome de André Ceciliano, longe de ser irrelevante, representa uma ameaça real aos seus planos de poder no Rio de Janeiro.

Por Michelle Almeida

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *