Por Dr. Hamilton Júnior
A alimentação pode se tornar um grande desafio para muitas famílias de crianças com transtorno do espectro autista (TEA). Entre as dificuldades mais comuns está a seletividade alimentar, situação em que a criança restringe muito os alimentos que aceita comer. Diferente de uma simples preferência infantil, no autismo essa seletividade costuma ser mais intensa, persistente e capaz de interferir diretamente na saúde e na rotina familiar.
Muitas crianças autistas aceitam apenas determinados tipos de alimentos, marcas específicas, cores, temperaturas ou texturas. Algumas comem somente alimentos crocantes; outras preferem comidas muito macias ou recusam completamente frutas, verduras e legumes. Em certos casos, apenas a aparência ou o cheiro do alimento já é suficiente para provocar rejeição.
Essas dificuldades estão frequentemente ligadas às alterações sensoriais comuns no TEA. O cérebro da criança pode interpretar sabores, cheiros e texturas de forma exageradamente intensa, tornando a alimentação desconfortável. Por isso, aquilo que parece “frescura” ou “mimo” para algumas pessoas pode representar uma dificuldade real para a criança.
Outro problema muito associado à seletividade alimentar é a constipação intestinal, conhecida popularmente como prisão de ventre. Crianças autistas apresentam maior tendência à dificuldade para evacuar, principalmente devido à baixa ingestão de fibras e líquidos, alimentação restrita e alterações sensoriais relacionadas ao próprio funcionamento intestinal. Algumas crianças também evitam evacuar por medo de dor ou desconforto, agravando ainda mais o problema.
A constipação pode provocar dores abdominais, irritabilidade, distensão da barriga, alterações do sono e piora do comportamento. Em muitos casos, a criança não consegue expressar claramente o desconforto físico, demonstrando apenas agitação, choro ou crises mais frequentes. Por isso, alterações intestinais merecem atenção durante o acompanhamento médico.
Além da seletividade alimentar, algumas crianças podem desenvolver transtornos alimentares mais importantes, com recusa extrema de grupos alimentares e risco de prejuízo nutricional. Nessas situações, o acompanhamento multiprofissional torna-se fundamental para garantir crescimento e desenvolvimento adequados.
O tratamento envolve orientação nutricional, terapia ocupacional, acompanhamento psicológico e apoio aos pais. A introdução de novos alimentos deve ocorrer de maneira gradual e respeitosa, sem pressão excessiva durante as refeições. Ambientes tranquilos e experiências positivas costumam trazer melhores resultados do que insistência ou punições.
Falar sobre seletividade alimentar no autismo é importante para aumentar a compreensão das famílias e reduzir julgamentos. Com orientação adequada e intervenção precoce, muitas crianças conseguem ampliar o repertório alimentar, melhorar o funcionamento intestinal e desenvolver uma relação mais saudável com a comida ao longo do crescimento.
Dr. Hamilton Júnior é especialista em Pediatria e Neurologia Pediátrica