Por Hamilton Júnior
O uso de telas, como celulares, tablets, computadores, televisores e videogames, cada vez mais se torna presente na rotina das crianças. A tecnologia pode trazer benefícios para a aprendizagem, comunicação e entretenimento, mas seu uso excessivo pode trazer consequências importantes no processo de neurodesenvolvimento infantil. Os primeiros anos de vida de uma criança é a fase mais no desenvolvimento do cérebro, da linguagem, das habilidades motoras e da capacidade de interação social. Nesse período, a criança aprende principalmente por meio das experiências do mundo real, como brincar, conversar, correr, explorar ambientes e interagir com outras pessoas. Quando grande parte desse tempo é substituída pelas telas, experiências importantes podem ser perdidas.
Um dos principais problemas relacionados ao excesso de telas é a alteração do sono e da concentração. Muitas crianças utilizam telas próximo ao horário de dormir, o que pode dificultar o início e a qualidade do sono. Além disso, o excesso de telas pode prejudicar significativamente a atenção e o foco, por conta do excesso de estímulos, dessa forma muitas vezes esse uso indiscriminado das telas pode reduzir o tempo destinado às atividades físicas, aumentando o comportamento sedentário e contribuindo para hábitos manos saudáveis.
Outro ponto importante é o desenvolvimento da linguagem e das habilidades sociais. Crianças pequenas precisam conversar, ouvir histórias, brincar e interagir com adultos e outras crianças para desenvolver sua comunicação. Assistir passivamente a vídeos não oferece a mesma qualidade de interação que uma conversa real. Além disso, quando o celular ou tablet é utilizado constantemente para acalmar a criança, evitar o tédio ou interromper uma crise, ela pode ter menos oportunidades para aprender a lidar com frustrações, esperar, negociar e desenvolver sua própria capacidade de controlar as emoções.
Um cuidado especial deve existir com crianças com Autistas e TDAH. Algumas dessas crianças podem apresentar maior dificuldade para interromper uma atividade muito estimulante e mudar para outra menos interessante. Por isso, quando o tela é retirado, podem ocorrer choro, irritação, gritos, agressividade ou grande dificuldade para aceitar a mudança. Muitas famílias chamam isso de “crise de abstinência”, mas é mais adequado compreender como uma dificuldade de lidar com a interrupção de uma atividade muito prazerosa e com a mudança de rotina. Isso não significa que toda criança com TEA ou TDAH terá esse comportamento, nem que as telas sejam a causa desses transtornos.
Nessas situações, a retirada das telas deve ser feita de maneira organizada. Avisar previamente que o tempo está terminando, estabelecer horários claros, utilizar uma rotina visual e oferecer outra atividade interessante pode ajudar a criança a fazer essa transição. O objetivo não deve ser simplesmente retirar o celular, mas ensinar a criança a utilizar a tecnologia de maneira equilibrada. Brincadeiras, livros, atividades ao ar livre, música, desenho, jogos de construção e momentos de conversa são alternativas importantes. A participação dos pais também é fundamental, pois as crianças aprendem muito pelo exemplo dos adultos.
Portanto, o grande problema das telas na infância não está apenas no tempo de exposição, mas principalmente no que a criança deixa de fazer por causa delas. Quando o uso excessivo substitui o sono, as brincadeiras, a atividade física, a alimentação adequada, a convivência familiar e as interações sociais, diferentes áreas do desenvolvimento podem ser prejudicadas. A tecnologia faz parte da vida moderna e não precisa ser completamente proibida, mas deve ser utilizada com limites e de acordo com a idade e as necessidades de cada criança. Afinal, nenhuma tela substitui o contato humano, o carinho, a conversa, a brincadeira e a experiência de descobrir o mundo.
Dr. Hamilton Júnior é especialista em Pediatria e Neurologia Pediátrica