Por Alberto Aquino
Eu continuo achando que as pessoas não deveriam morrer nunca…Ou, ao menos, tem gente que nunca deveria morrer, sob pena de fazer uma falta imensa, e eterna.
Essa história aconteceu em 2022 quando fui convidado a fazer parte do admirável Festival de Cinema de Vassouras, uma bela cidade do Vale do Café, no sul fluminense.
Eu havia sido requisitado pela produção do evento para fazer os podcasts com cineastas, artistas e convidados do Festival. Esses podcasts ficariam como documentos no acervo da produção do evento e da Universidade de Vassouras, a Fundação Severino Sombra, onde, no Centro de Convenções se realizou, durante dez dias, o evento.
Em um dos dias do Festival, tarde da noite, fui avisado pela produção que um dos meus entrevistados no dia seguinte, as 10 horas, seria a família Barreto. Ou seja, Luiz Carlos, Lucy, Bruno e Paula Barreto. Fiquei meio atônito com a notícia. Era tarde e não teria nem tempo para fazer uma boa pesquisa sobre os meus ilustres personagens.
Então, busquei na memória tudo o que sabia sobre cinema brasileiro, desde a época, em que garoto de, no máximo, 16 anos, frequentava os antigos corredores da Embrafilme, em Botafogo e, de certa forma aprendia por ‘osmose’ tudo sobre o cinema nacional. Alem, é claro, de ter a sorte de ‘conviver’ com os mais importantes cineastas da época, e artistas como o designer Fernando Pimenta, que criou os mais belos e importantes cartazes do cinema brasileiro.
No dia seguinte, lá fui eu para a salinha de podcast, construída especialmente para as entrevistas, no imponente prédio do Centro de Convenções da Universidade de Vassouras, durante esses dias transformado no Palácio do Festival.
As 10 horas, enquanto tomava um cafezinho, chegou o clã Barreto. Falantes, divertidos, animados como um almoço de domingo. A todo custo acomodamos todos na simpática salinha de 3 X 2 e começamos nosso bate-papo.

Assim que chegaram, fui avisado pela produção do Festival que tínhamos 40 minutos de entrevista porque, em seguida, a família Barreto teria outro compromisso no evento, onde, no dia seguinte, seriam os grandes homenageados da noite de encerramento do Festival, ao lado de outras celebridades como o ator Carlos Vereza.
Durante o podcast fizemos um tour pelo cinema brasileiro. Falamos de todas as produções da família, que não foram poucas. Dos filmes de Cacá Diegues – um dos seus mais frequentes parceiros – Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos – a quem todos nutriam, particularmente, uma grande amizade – Joaquim Pedro de Andrade, Arnaldo Jabour e muitos outros. De “Dona Flor e seus dois maridos”, filme recordista do cinema brasileiro, e, claro, dos filmes indicados ao Oscar produzidos pelo clã Barreto: “O Quatrilho”, de Fábio Barreto e “O Que é Isto Companheiro”, de Bruno Barreto.
As horas se passavam e as histórias interessantes, divertidas e, as vezes, até muito engraçadas, se sucediam. Os 40 minutos iniciais se transformaria em quase 2horas e 30 minutos de um bate-papo delicioso.
A família Barreto é assim, como a Grande Família. Falam de tudo, mas nem sempre compartilham a mesma opinião. Eles estiveram presentes a praticamente todas as grandes realizações dos últimos 60 anos do cinema brasileiro, de forma independente ou através de sua empresa, a L.C. Barreto Produções.
Com pontos de vista, algumas vezes diferentes, eles transformaram o cinema num importante produto de reconhecimento da identidade brasileira de exportação, e, de quebra, ainda conquistaram indicações aos mais importantes prêmios do cinema mundial.
CINEMA NOVO
Antes de se dedicar a produção de cinema, Luiz Carlos Barreto foi fotógrafo de “O Cruzeiro”, a principal revista ilustrada brasileira da primeira metade do século XX, que pertenceu ao grupo Diários Associados.
E, como diretor de fotografia, logo no início de carreira, assinou dois dos filmes mais importantes do Cinema Novo: “Vidas Secas”, de1963, de Nelson Pereira dos Santos, adaptação do romance de Graciliano Ramos, e “Terra em Transe”, de 1967, de Glauber Rocha.
HANDSOME
Antes de encerrar o nosso bate-papo, o inteligente e irrequieto Luiz Carlos Barreto me contou um fato bastante interessante, quando encontrou o filho Bruno e a atriz Amy Irving, no red carpet, no ano em “O Que é Isto Companheiro” concorria ao Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1998. Bruno e Amy estavam casados há dois anos, e após receber elogios do sogro, ela agradeceu e se referiu ao Bruno como handsome, palavra que é frequentemente usado para descrever homens fisicamente atraentes de maneira tradicional e que também pode significar ‘bonito, elegante ou impressionante’.
Neste momento, como se estivesse dirigindo um filme, olhando para a câmera em tom de humor, ele explicou que não era um homem gay, mas que me achava handsome.
Após entender a dimensão do elogio, agradeci (meio vesgo, confesso), sem interromper o tom de descontração, e encerrei o podcast fazendo uma alusão ao seriado “A Grande Família”.
Afinal, o clã dos Barretos provou durante a longa entrevista que é realmente uma família muito unida, ao melhor estilo das grandes famílias, bem brasileiras.
O podcast está documentado nos arquivos do Festival e disponível para pesquisas, especialmente aos estudantes da sétima arte.
Alberto Aquino é jornalista, produtor de eventos e editor do portal ExtraVip