Rohan Baruck vence o Prêmio APTR de Teatro na categoria Melhor Diretor

Dramaturgo e produtor de São João de Meriti conquista uma das principais premiações do teatro carioca com uma comédia musical criada ao lado de mais de 25 artistas da Baixada Fluminense

O teatro brasileiro tem uma nova imagem para guardar: um artista da Baixada Fluminense atravessando os limites historicamente impostos à produção periférica e voltando para casa com um cobiçado Prêmio APTR. Rohan Baruck, de São João de Meriti, venceu a 20ª edição na categoria Direção pelo espetáculo “Maldita”, uma comédia musical irreverente, popular, queer e profundamente coletiva, criada a partir da Escola Popular de Teatro da Baixada, do Instituto Cultural Cerne.

A conquista ganha contornos ainda mais expressivos pelo contexto: Rohan concorreu ao lado de nomes consagrados do teatro nacional, como André Paes Leme, Rodrigo Portella, Elídio Lopes Jr., Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky. Além da vitória como diretor, o artista recebeu indicações em Dramaturgia, Direção de Movimento e Música, um feito raro — e apontado pela equipe como possivelmente inédito — para um artista da Baixada Fluminense em uma mesma edição do prêmio.

“Esse prêmio não começa na noite da cerimônia. Ele começa em São João de Meriti, em Nilópolis, nos teatros que faltam, nas escolas, nos centros culturais, nos ônibus lotados, nos ensaios sem dinheiro e na insistência de quem acredita que a Baixada também produz pensamento, estética e linguagem”, afirma Rohan. “Eu não ganhei sozinho. Esse prêmio é de um território inteiro que, há muito tempo, faz teatro mesmo quando dizem que não há palco.”, completou.

A história de Rohan ajuda a dimensionar a potência simbólica da conquista. Hoje com 36 anos, ele faz teatro desde os 7. Começou ainda criança, em Nilópolis, no antigo Centro Cultural. Entre os 10 e os 15 anos, trabalhou em um botequim para ajudar a pagar as contas de casa. Décadas depois, aquele menino que dividia a infância entre trabalho e criação artística torna-se vencedor de uma das principais premiações do teatro do Rio de Janeiro.

Rohan ganhou o prêmio pela direção no espetáculo Maldita. – Foto: Renata Prado

“Quando uma criança periférica precisa trabalhar cedo, muitas vezes o mundo tenta convencê-la de que sonho é luxo. O teatro foi o lugar onde eu aprendi a imaginar outra vida. Ter um APTR em casa, vindo da Baixada, é também dizer para outras crianças que a arte pode ser caminho, ferramenta e destino”, completa.

“Maldita” nasceu de um gesto radical de confiança. O espetáculo reuniu mais de 25 artistas da Baixada Fluminense, escolhidos por carta de intenção. Não houve teste convencional, nem audição, nem uma conversa prévia para medir repertório ou currículo. O que importava era o desejo de fazer teatro.

A partir desse desejo, Rohan e o grupo construíram uma comédia musical escrachada, pop e provocadora, que revisita tragédias gregas como Édipo Rei e Antígona por meio do humor, da cultura drag, do lipsync, da paródia e de referências da cultura popular. Em cena, o trágico encontra o deboche; o cânone encontra a periferia; a formação teatral encontra a festa.

O resultado foi um fenômeno de público e crítica. “Maldita” já ultrapassou 3.500 espectadores, foi o grande vencedor do 48º Prêmio Paschoalino, com 14 indicações e 6 prêmios, recebeu indicações ao Prêmio do Humor, de Fábio Porchat, e chegou ao 20º Prêmio APTR com presença em quatro categorias.

Para Rohan, o reconhecimento desloca uma fronteira simbólica. “A Baixada Fluminense costuma aparecer na imprensa pela falta, pela violência, pela precariedade. Mas existe uma outra Baixada, que cria, pesquisa, dirige, escreve, canta, dança, forma artistas e disputa linguagem. O que aconteceu com ‘Maldita’ é a prova de que não estamos pedindo licença para entrar na história do teatro. Nós já fazemos parte dela.”

A vitória também evidencia a importância da Escola Popular de Teatro da Baixada e do Instituto Cultural Cerne, em São João de Meriti, como espaços de formação, criação e permanência artística em um território ainda marcado pela desigualdade de acesso a equipamentos culturais.

Com dramaturgia e direção de Rohan Baruck, “Maldita” sobe ao palco com um elenco majoritariamente formado por artistas LGBTQIAPN+ e periféricos. A montagem transforma a cena em um território de afirmação estética e política, sem abrir mão do riso. Pelo contrário: é justamente pelo humor que o espetáculo desestabiliza hierarquias, questiona cânones e mostra que a sofisticação também pode ser debochada, musical, popular e nascida fora do eixo hegemônico.

“Ganhar Direção com uma comédia musical da Baixada, feita com artistas que muitas vezes estavam tendo sua primeira grande experiência de palco, é uma resposta muito bonita ao cinismo do nosso tempo. A gente venceu porque acreditou em gente. Acreditou em desejo. Acreditou que formação artística não é fabricar talentos para caber no mercado, mas criar condições para que pessoas possam existir em cena com força, liberdade e complexidade”, diz Rohan.

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